Você em mim
- partilharhistorias
- 8 de jun.
- 2 min de leitura

Dia desses me peguei pensando em como tudo começou. As chances que tínhamos de nos cruzar eram mínimas. Você, definitivamente, não fazia o meu tipo e eu, conscientemente, sabia disso quando nos cumprimentamos pela primeira vez. O famoso clichê, pagar a língua, os opostos se atraindo, talvez, por algum aspecto freudiano…
Alguns dariam o nome de padrão, ou melhor, diriam que eu estaria repetindo padrões inconscientes, tentando fugir de amores que não deram certo pela semelhança, provando do novo, do desconhecido, para dar uma de aventureira.
Porém, em anos de terapia não consegui chegar em conclusão alguma. Toda hipótese me leva a olhar para eu mesma e ao pronome possessivo que gritava: MINHAS escolhas, MINHAS histórias, MINHAS vontades, MINHAS tentativas. Tão cansativo e autobiográfico…
A questão é: como podemos nos ver em uma pessoa tão diferente de nós? E qual é a mágica que faz tudo dar certo, quando até o certo parece estar errado? Levei meses para aceitar esse plot twist amoroso.
Eu nem diria que você aguardou pacientemente porque isso nem faz parte do seu ser. Na real, eu via graça no seu bom humor, na abertura para qualquer programa, na incapacidade de passar horas confabulando os porquês os encontros não tinham virado uma relação ainda. Eu chamava e você vinha. Cheio de histórias, risadas, cheiro de menta e uma capacidade inatingível de descobrir restaurantes excêntricos para experimentarmos novos pratos e rirmos de tudo ao redor. Afinal, era cada biboca, que eu demorava a compreender o que estava fazendo lá ou se o mal-estar da vez seria de uma bactéria pela manipulação duvidosa.
Cada passeio e eu voltava ao avesso. Pouca coisa de mim permanecia e eu achava ótimo.
Hoje, prestes a entrar no local que escolhemos para casarmos, estou aqui revivendo essas memórias e me questionando sobre o que sobrou de mim. Será que ainda há algum resquício escondido? Confesso que tenho medo de ter me perdido e me tornado você, tenho medo dos anos que estão por vir, das semelhanças que podem nos afastar e da discrepância que, igualmente, teria a capacidade de nos fazer dois estranhos em um lar. Mas, o que é o medo senão a oportunidade de nos aventurarmos e deixarmos o tempo dizer o que acontecerá?
Então, meu amor, quando eu caminhar até você, mostre, mais uma vez, toda a sua graça. Faça com que eu esqueça de todo o planejamento, que não enxergue ninguém a não ser a alma que dividimos e faz com que eu sinta você em mim.
Que os nossos passos sejam repletos de emoção para que eu olhe para atrás depois de uma década, ou qualquer boda de fizermos, com a certeza de que não haveria outra pessoa para testemunhar minhas mudanças. E, obviamente, que eu seja capaz de fazer o mesmo por você.
Se antes, eu chamava e você vinha. No nosso dia, sou eu quem vou!




Comentários