Amores maduros em corpos imaturos
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- há 6 dias
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Eu sempre fui velho. Curti música de velho. Queria avançar os anos para meio que estar na mesma vibração de uma alma, pasme: também velha.
Ao invés do rock, da balada, de toda inconsequência juvenil, mergulhava na MPB, queria filosofar sem fim sobre as letras, encontrar pessoas que pensassem da mesma maneira. Afinal, como essas canções sabiam falar de amor…
No colégio, eu ficava um tanto à margem dos colegas. O que me permitia viver da forma que eu quisesse, sem ser zoado por isso ou importunado para agir em grupo, apenas para agradá-los. Porém, o que pouco se fala sobre viver à espreita, nela eu podia observar, atentamente, como as pessoas se moviam, se expressavam, se ininuavam e tornavam toda a cena mais interessante.
Até que na aula de Português, que eu era extremamente interessado, fiz algumas perguntas e a professora pediu que eu lesse um texto que eu tinha entregue na prova, em voz alta. Lógico que me senti desconfortável, descompassado, desorientado e todos os “des” que você puder imaginar. A margem agora estava na superfície e isso causava estranheza: todos os olhares para mim. O ponto de observação que eu não tinha com frequência e que não permitia enxergar além dos fatos.
Foi ali, em frente à turma, que, varrendo a sala com a visão, consegui tatear as ranhuras da sua íris, de tão profundas que elas me pareciam. Verde, amarelo, com tons de marrom, quase que como uma explosão de tinta, em uma tela abstrata.
Encontrei nessa via, ouso a dizer de mão dupla, a compreensão de todas as minhas inquietações com a música. Como encarar era tão mais profundo que falar? Como juras de amor ou estrofes ritmadas perdiam o sentido facilmente?
Piegas, sim. Resumi o nosso encontro da forma mais antiga possível.
Nosso amor maduro, mesmo em corpos imaturos, perdura até hoje. Cinquenta anos após o sim e 60 após nosso primeiro mergulho na alma velha que sabia pulsar como criança no jardim.
Que esses olhos sejam nossas janelas para a vida por muitos outros anos.
Que esses olhos registrem memórias incontáveis despertadas em ranhuras, rajadas e fendas, que não querem jamais serem preenchidas, tapadas, silenciadas.
Que eles ecoem um legado na nossa boemia a dois.
Você me fez raiz quando eu me imaginei pluma ao vento, na leitura de um texto que pouco dizia, a não ser: só quero voar para a imensidão que puder me ocupar com um pouco de voz para além de mim.
Te amo




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