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Desencontros

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    partilharhistorias
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

Nossos desencontros eram mais frequentes que os encontros.


Inconsistentemente consistente; sinônimo de paixão ardente, paquera despretensiosa, relação adolescente.


Tique-taque o tempo passava e pouco nos importávamos.


O jogo era tão gostoso que o abrir de porta, o andar na ponta dos pés, o surpreender com um beijo ao pé do ouvido e a desorientação se era dia ou noite, tornava tudo trovadoresco; um misto de cantiga de amor e de amigo.


Eu que ia e vinha amava a brincadeira. Aliás, ansiava por ela.

Você, tão receptiva, entrava na onda. O que me fazia acreditar que aqui era tudo o que precisávamos para ser feliz.


Até o dia que eu cheguei, na ponta dos pés andei, fui até o quarto e não te encontrei. Estranho. Te procurei em todos os outros cômodos e sem resposta fiquei. Você não estava lá, não havia bilhetes e nem orientação de onde tinha ido.


Resolvi esperar. Não muito para evitar dar na cara que eu estava impactado com o dia diferente, mas o suficiente para entender que essa valsa, hoje, só tinha tocado na minha mente.


Foi então que decidi romper com minhas regras e liguei para você.

O telefone estava em cima da mesa. Ouvi os toques no aparelho e o eco na sala.

Fiz isso vezes seguidas até me considerar sozinho o suficiente para ir embora. A propósito, eu tinha pouco tempo naquele dia.


O calendário seguiu e a ligação que recebo, após uma semana, não é das mais agradáveis.

Vejo seu nome no identificador, deixo chamar várias vezes pela raiva de não conseguir seguir com o meu plano de visitas. Quando atendo, compreendo que algo está errado. É a sua voz, mas ela esconde alguma coisa. Entre a saudação e o término da chamada, só gravo a frase: "nós precisamos conversar!"


No dia seguinte, deixo os sapatos na entrada, abro a porta, entro com os pés inteiros no chão. Caminho até onde eu te surpreendia com o beijo ao pé do ouvido e me deparo com seu corpo na cama.

Você se vira, sorri, pede para que eu me sente ao seu lado e me tira o chão ao contar que passou mal, foi ao médico e a doença tinha voltado. Para completar, com a emoção nos olhos porque ela desaguou em segundos, ela consegue repetir a sentença: "tenho apenas um mês".


Eu que viajava a trabalho e tinha adotado esse jeito de chegar de maneira positiva, apaixonada e fazendo com que a vida vibrasse a cada regresso, me vi sem planos. 


Como eu faria o amor da minha vida, que tanto caminhou ao meu lado, compreender a sua grandiosidade em tão pouco tempo?


Me deitei ao seu lado, a abracei e ali fiquei. A minha resposta, sem sombra de dúvidas foi ficar. Não viajei mais, troquei o jeito faceiro de entrar em casa por noites compartilhadas, cafés da manhã sem pressa, mãos dadas para a caminhada da cama ao banheiro, dobrei roupas com zelo, penteei seus cabelos registrando as curvaturas, a mudança de cor, o cheiro que exalava daquele xampu que você tanto gostava.


Eternizei em mim a sua vivência.

Declarei por você o meu sentimento mais profundo.

Amar você nunca foi um privilégio. Viver contigo, sim!


Hoje me despeço sem estratégias para te fazer feliz; me despeço com a saudade que teima em fazer morada antes mesmo da sua essência deixar os espaços em nossa casa ou em meu coração.


Por hoje e para sempre, nós!


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