Mania de amor
- partilharhistorias
- 1 de jun.
- 2 min de leitura

Tenho mania de teorizar tudo aquilo que me envolvo. Seja a leitura de um livro, seja abastecer um filtro. Vou da simples prática aos pensamentos mais complexos de como conecto coisas comigo. Se tudo é uma grande coincidência do destino e pouco a pouco vai se revelando ou se nada faz sentido mesmo.
Será que alguém também é assim? Faz isso no automático, não compartilha por receio de acharem estranho, embora se identifique e seja atraído por estranhezas?
Já li muito sobre amor e a tentativa de encontrá-lo. As fantasias são tantas e esse universo é tão vasto que me faz crer até na poesia da água que escorre da chaleira e cai no filtro de barro. O barro tão subestimado e tão essencial e o mesmo eu diria da água, em tempos que o uso pode cair em desuso.
Foi teorizando, aleatoriamente, em uma mesa de bar, sobre como uma figueira permaneceu em pé, fincou raízes e se tornou abrigo para um tanto de gente que celebra qualquer fato, por assim dizer, que eu te encontrei.
Ah, meu filtro de barro! Que na hora não foi nada do que eu sempre criei, mas se fez abrigo para ideias desconexas e um pingo de lamúria. Afinal, mesmo falando de árvore, eu queria falar da vontade que eu tinha de estar com alguém, sentindo a água escorrer em mim, preencher as capilaridades do meu corpo, da alma e me tornar mais viçosa pelo ímpeto de me impulsionar a ser quem sou, honrando a minha história e o meu caos.
Você ria e esbanjava despretensiosidade. Era aquele negro amarronzado, que o sorriso brilha e a covinhas se aprofundam nas bochechas - que encanto para um filtro, não é mesmo?
E quando notei já tinha parado com meus devaneios, escutava os seus, ou melhor, não escutava - algo que você não precisa muito saber -, e ficava rindo à toa, na expectativa de você acreditar que era o efeito da bebida. Embora eu odiasse beber e estivesse somente com um suco no copo, bem aguado, porque me esqueci de beber e o gelo derreteu.
Quem viu de fora percebeu. Eu estava sempre ali, sempre. Peça caricata do rolê, falante para além das folhas, dos ninhos, das paredes do museu e das antenas da avenida. E, naquele dia, emudeci para te assistir.
De repente fiquei inebriada por uma voz além da minha; além do meu mundo.
E foi assim que tudo começou: da água pro barro, do barro pro corpo, do corpo para os olhos, dos olhos direto ao coração.




Comentários